Missão Biomédica entrevista o Biomédico Imunologista, Doutor Leandro Thiago.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Missão Biomédica entrevista o Biomédico Imunologista, Doutor Leandro Thiago.


-Qual é a atuação do biomédico imunologista?

A imunologia é uma área muito ampla, que resumidamente se dedica ao estudo do sistema imunológico, na saúde e na doença. Nesse campo, podemos encontrar desde imunologistas com interesse em pesquisa básica, que se dedicam aos estudos dos mecanismos celulares básicos de células normais e patológicas até biomédicos que exercem a imunologia clínica, valendo-se de métodos laboratoriais para o diagnóstico de alterações do sistema imune, determinação de histocompatibilidade para transplantes e uso de ferramentas da imunologia (como anticorpos) para identificação e monitoramento de processos infecciosos.
Entre as alterações do sistema imune, o biomédico imunologista tem papel central no diagnóstico e monitoramento laboratorial de imunodeficiências primárias e secundárias, doenças auto-imunes, doenças de hipersensibilidade e neoplasias do sistema hematopoiético.

-Por que você escolheu a imunologia?

Meu principal interesse científico são os cânceres, em geral, e as neoplasias hematológicas, em particular. Dentre as neoplasias hematológicas, tenho me dedicado especialmente às neoplasias linfóides, como leucemias linfoblásticas agudas, doenças linfoproliferativas crônicas e mieloma mútiplo. Portanto, a carreira em imunologia foi uma consequência natural do meu interesse nas doenças que acometem o sistema imune e em como o sistema imunológico controla o surgimento e a progressão dos tumores.

-Como a imunologia contribui no diagnóstico de neoplasias hematopoiéticas?

A imunologia mudou radicalmente a forma como essas doenças são diagnosticadas. Até meados da década de 70, o diagnóstico das leucemias agudas era essencialmente morfológico. Nessa época, sabia-se apenas que as leucemias agudas eram um “acúmulo” de células na medula óssea, sem que ninguém soubesse que célula precisamente era essa. Foi o trabalho do britânico Dr. Mel Greaves, um zoologista convertido em imunologista, que identificou através da citometria de fluxo que a maior parte das leucemias agudas da infância é causada pela expansão de células linfóides B ou T. Hoje em dia, não se concebe fazer hematologia sem a imunofenotipagem por citometria de fluxo.
O biomédico habilitado em imunologia e especializado em citometria de fluxo não só manipula as diferentes amostras biológicas no laboratório (medula óssea, sangue periférico, líquor, linfonodos, derrames cavitários) como tem papel essencial no laudo, como responsável pela elaboração completa do laudo incluindo a conclusão final, firmando-o.

-Após um paciente ser diagnosticado com uma neoplasia hematológica como leucemia ou linfoma, quais procedimentos são realizados?

Após o diagnóstico, o tratamento é conduzido exclusivamente pela equipe médica. O biomédico volta a ser importante no monitoramento da resposta ao tratamento, que avalia o número de células malignas residuais após determinado período de tratamento. Essa quantificação, que chamamos de Doença Residual Mínima (DRM) é feita por citometria de fluxo ou biologia molecular. Para o estudo de DRM por citometria, o biomédico precisa então identificar precisamente o fenótipo da célula maligna que a distingui completamente das células normais e buscar esse perfil imunológico nas amostras sequencias de tratamento. Esse resultado tem profundo impacto clínico pois a frequência de células neoplásicas durante as diferentes fases da quimioterapia reflete o nível de resposta do câncer ao tratamento. A consequência prática disso é que os médicos estratificam o risco de recaída (retorno da doença) de acordo com a quantificação de DRM e por isso um paciente com boa resposta tende a receber menos quimioterapia e um paciente com má resposta é estratificado com alto risco e recebe doses maiores de quimioterapia.

-Qual é a sua avaliação para o mercado de trabalho nessa área?

Por ser uma área muito versátil, o mercado de trabalho ainda é bom, apesar de haver muitos imunologistas formados vindos de outras carreiras. Eu sempre digo aos meus alunos da pós-graduação que é essencial que eles se especializem em tecnologias de alta complexidade como citometria de fluxo, biologia molecular, genética/genômica, proteômica, entre outras. Digo isso porque a automação é regra no setor diagnóstico e, portanto, os melhores cargos e salários serão sempre reservados aos profissionais especializados em exames complexos. Além disso, é essencial ter um profundo conhecimento científico da área em que atua , incluindo aí o domínio do grupo de doenças com que trabalha. Não há mais espaço para ser bom. A excelência é fundamental.
A carreira de pesquisa no Brasil é ainda basicamente estatal, pois são raras as empresas privadas com atividade científica por aqui. Sendo assim, essa área sofre as consequências do cenário atual de crise política e econômica, que tem reduzido drasticamente os investimentos no setor de C&T. Há poucos concursos abertos no momento e acredito que demoraremos a recuperar como estávamos há alguns anos atrás.
A carreira assistencial, por outro lado, se dá tanto no setor público quanto no privado. Há muitos laboratórios privados atuando na área de diagnósticos complexos, como a citometria de fluxo, e acho que há espaço para muitos outros laboratórios atuarem. Somo ainda carentes de laboratórios desse tipo fora do eixo Sul-Sudeste e isso cria demanda por biomédicos especialistas.
Apesar dos salários serem maiores no setor privado para aqueles que são especialistas em tecnologias de alta complexidade, eles dificilmente são maiores que os salários pagos no funcionalismo federal aos biomédicos com título de Doutor. A carreira pública federal é a que goza de maiores remunerações.

-Quais são as vantagens e desvantagens da Imunologia?

Uma vantagem é que a imunologia é uma área muito versátil e, portanto, o biomédico habilitado nessa área pode encontrar espaço em muitos laboratórios. A desvantagem é que há muitos profissionais formados vindos de outras carreiras, o que aumenta a concorrência. Acho que o fato de haver uma competição maior precisa ser ponderado: Apesar de em princípio ser ruim para o recém-formado, a competição pode ser usada a favor do profissional como incentivo para que ele continue estudando, além de ser benéfica do ponto de vista macro para o sistema de saúde e de pesquisa, garantindo que teremos os melhores profissionais atuando.

-Você já teve um caso clínico que foi desafiador, de difícil diagnóstico?

Sim, muitas vezes. A área de imunofenotipagem por citometria de fluxo é extremamente complexa e o diagnóstico e monitoramento de neoplasias é muito desafiador. Muitos desses casos mais complexos se devem ao fato da doença ter uma apresentação atípica ou por serem casos raros. A interpretação em citometria não é automatizada. É uma atividade intelectual.



FONTE: www.facebook.com/MissaoBiomedica



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